14 de set de 2016



O Sem fim para mim


Você descansa o meu corpo
Clareia a minha mente
Acalanta os meus devaneios
Eu que sou um dissidente
De Eras profundas, antigas
Docemente acaricia as minhas
Cicatrizes doloridas
É uma interrogação para
A minha imaginação sombria
Traz calor para o sangue
E um frio na barriga
Causa indolência, torpor
Acho que engana por convicção
É algo imparável, imutável
Transforma-me em vítima
Mesmo sendo eu caçador
Ilustra a minha vida com
Pinturas silvestres
Mas injeta em meu paladar
O seu sabor viciante
Ninfa das marés sangrentas
O sem fim é você para mim


 

Marcelo Gomes Melo

9 de set de 2016


A hora do Tapitinguá



          Hanestésio é macho bomba, é garoto sepulcral, é modinha plural, o homem das baladas epidemiológicas. Gosta de se vestir de forma inequívoca, tornando claro que está antenado com as tendências delimitadas pelo mundo em todas as áreas, principalmente as artísticas.
          Artísticas na óptica dele, diga-se de passagem. E o gosto de Hanestésio, homem do amor e da flor, tiozinho Sukita sem noção, não era lá essas coisas, pendendo mais para o péssimo do que para o razoável. Mas gosto é algo bastante subjetivo, dizem os que vivem em cima do muro, sem querer se comprometer com nada que lhes traga antagonismo.
          Hanestésio empurrava aquele boné na pequena cabeça de melancia, uma calça daquelas retalhadas que custam uma fortuna mesmo que faltem pedaços, um tênis de jogador de basquete americano, coloridão com cadarços desamarrados, uma camisa polo de marca dois tamanhos maior e um óculos escuros utilizado como “arquinho”, resquício da mania do pagode que ele mantinha sem perceber. Ah, cabe ressaltar que os óculos ficavam sobre o boné, o que era ainda mais bizarro!
          E assim ia ele às baladas mais exóticas, batalhando as novinhas como se não houvesse amanhã, tentando se acomodar em uma tribo que não parecia ser a dele em nome da felicidade. Hanestésio era homem de cidade pequena, distante dos grandes movimentos da moda universal, mas desde que inventaram o computador, as informações se encurtaram, chegavam mais rápido ao local em que ele se escondia, isso era estarrecedor. As notícias chegavam, mas distorcidas como na antiga brincadeira do telefone sem fio, que existia na Era da pedra lascada ou coisa assim.



          Para ele a sexta feira era a “hora do Tapitinguá”, era quando a onça bebia água, e a “onça” era ele; saía para a caçada semanal por sexo, cerveja e funk carioca, não necessariamente nessa ordem. Esses elementos acalmavam o âmago tumultuado de Hanestésio, o desespero silencioso que o massacrava, a solidão tática que se espalhava por todo o seu ser e o fazia tentar eternamente manter o pescoço acima do lamaçal que era a vida para um ser humano como ele.
          Pode ser triste, mas é assim com milhares de indivíduos, e talvez o apego às futilidades salve diversas pessoas do ostracismo e da morte; então, já filosofando sem querer filosofar, nada é tão sem categoria que não se possa absorver alguma coisa em proveito próprio. Isso faz de muita gente uma recicladora ambulante de lixo.
          A hora do Tapitinguá pode ser um engano solene ou uma salvação sensacional, dependendo de como cada um encara a sorte, ou a falta dela. Levando isso em consideração, todos deveriam agir como Hanestésio em 50%, pelo menos; criar a própria hora, seja em que dia for, seja em que local estiver. Sem esquecer que a ausência de preconceito também pode se tornar um preconceito, metalinguisticamente falando.




Marcelo Gomes Melo