17 de ago de 2016


Há algum tipo de amor no início desse século?



          Ele, garoto da periferia, filho de pedreiro com dona de casa, aprendeu desde cedo o valor do estudo e do trabalho. Ela, nascida na classe média alta, bairro nobre, filha de advogada com líder sindical aprendeu logo o valor da influência, do dinheiro e status para colocar-se tranquilamente nas melhores posições, e então lutar pelo bem estar dos mais necessitados, pelo menos do ponto de vista dela mesma.
          Ele começou a trabalhar cedo como Office boy em meio período, no mais aclamado escritório de advocacia do país, combinando com os estudos incessantes. Galgou, posição por posição o próprio espaço, até se formar com muito esforço.
          Ela, na melhor faculdade possível, demorou a se formar por conta das greves que liderava contra qualquer coisa que se movesse ou respirasse; fazia piquetes e queimava pneus nas esquinas, gritava palavras de ordem e se envolvia em embates violentos contra as forças opressoras. Mesmo assim conseguiu se formar advogada e ganhou de presente um escritório só dela na área mais badalada da cidade para se exercer a profissão, embora quase não aparecesse por lá; era apenas mais uma fonte de renda, tocado por contratados competentes.
          Ele era capitalista. Amava a riqueza e admirava o poder que emanava daqueles ambientes e de seus ocupantes. Desejava vestir-se como eles e possuir o que eles possuíam; roupas de marca e carros importados estonteantes para impressionar as pessoas que o viram na miséria, e mostrar a própria evolução sócio-profissional.



          Ela frequentava locais pouco usuais para alguém de seu porte institucional, como frentes de fábricas, pátios, estacionamentos, praças públicas, fazendo protestos e reivindicando vantagens e direitos para o povo, contra a minoria branca e rica, como ela.
          Ele usava relógio de ouro e diamantes e era reconhecido nas baladas regadas a uísque pelo seu comportamento arrogante e exigente. Ela usava camisetas de grife com a foto do Che Guevara e era conhecida no meio sindical e político como uma garota arrogante e exigente.
          Viviam nos ambientes mais opostos e agiam de maneira bastante diferente; havia quase que nenhuma chance de eles se encontrarem. Só que eles se encontraram. Os seus olhares se cruzaram.
          Ele estava saindo de uma boate da moda e caminhava até o seu carro importado, carregando aquele sorriso fixo dos deslumbrados. Ela estava na esquina, barrando a passagem com um piquete contra as atividades que ocorriam na boate com o aval e participação dos porcos capitalistas. O carro dele fora pichado e os pneus furados; retrovisores quebrados.
          Como todos aqueles que dão valor às coisas conquistadas com muito suor ele ficou pálido e enfurecido contra aquela turba de pobres invejosos de seu sucesso. De braços abertos deixava à mostra o seu Rolex no pulso,  exigia saber quem cobriria os prejuízos.
          Ela notara as roupas caras e o olhar incrédulo dos ricos atingidos por prejuízo financeiro. Ele notara a força no olhar decidido da moça.
          Eles caminharam na direção um do outro, na calçada, tendo o carro como paisagem de fundo. Estavam destinados a se encontrar ali, naquele momento, daquela forma.



          Ela tomou a iniciativa. Portando um bastão roliço de madeira resistente arremeteu com fúria e partiu o crânio dele com alguns golpes potentes. Ele morreu na hora.
          Não existe amor no início do século XXI.



Marcelo Gomes Melo

11 de ago de 2016


As noites de fita cassete



“Havia um tempo/Em que eu vivia/Um sentimento quase infantil/Havia o medo e a timidez...” Cantava o vocalista da banda brasileira RPM embalando uma juventude diferente, que não sofria as agruras da violência com a qual as gerações atuais têm que lidar. A tecnologia que domina a vida dos recém-nascidos nesse século não existia, e a grande novidade por aqui era o surgimento das rádios FM, segmentadas, trazendo as novidades europeias e americanas em termos de música com mais facilidade. Começava a se formar uma cultura musical diferente, assim como um comportamento que hoje pareceria pré-histórico e extremamente ingênuo.
          Não existiam CDs, muito menos pen drive ou qualquer dispositivo tecnológico de ponta. Nada de computadores pessoais ou música MP4. O que existia era o aparelho de som três em um, com tocador de vinil, rádio e tocador de cassete, primordial para a produção das fitas com 90 minutos de música sem interrupção para ouvir e dançar nos bailinhos de fim de semana, caseiros, que reunia a turma do bairro alternando os locais entre as casas de cada um.
          O funcionamento consistia em gravar as canções durante a semana, direto do rádio FM, torcendo para que a rádio não colocasse a vinheta no meio da música e estragasse tudo, ou que os pais invadissem a sala para oferecer lanche justo na hora da gravação, fazendo com que tudo fosse por água abaixo.
          A seleção romântica era a mais importante; havia programas noturnos no rádio para isso, com uma hora e meia de canções lentas para dançar e namorar, e isso era encarado com muita seriedade. Uma fita cassete com as melhores canções elevaria as chances de conseguir um par para o restante da noite. Táticas de sedução eram debatidas ao som de Marvin Gaye e até de Bem, do Michael Jackson, sem saber que a letra se referia a um rato. 



          A bebida era meia de seda, a festa começava com os “balanços” até que chegava a hora das “lentas” e de cada um procurar a garota que despertava os seus instintos românticos mais profundos para curtir durante a sequência de canções. A época era inocente comparada à atual; a garotada tinha uma história de vida e valores extremamente peculiares, viviam como adolescentes e não com adultos. Cresciam sem a maldade interior no DNA que hoje se verifica desde o berço. Como é que essa juventude se tornou adulta e se transformou em pais gerando filhos com valores tão diferentes?
          As noites de fitas cassete produziam felicidade e simplicidade, regadas a beijos e sussurros no ouvido, nada além disso. Nostalgia pura de quem está envelhecendo, e com isso comparando diferentes gerações com diferentes propósitos, o que não deixa de ser injusto.
          O mundo segue como um trem descarrilado, e os seres humanos são passageiros buscando sobreviver a seu modo, em tempos ruins. O que nos resta é acreditar na ciclotimia da vida, que volte a ser mais tolerante, feliz e rica como em outras épocas. O problema é se, para que isso aconteça seja necessário zerar tudo e recomeçar a semear após terra arrasada.



Marcelo Gomes Melo